Estávamos a meio da aula de Biologia, altura em que a voz do professor soa como uma música de embalar nos meus ouvidos, quando me chegou isto às mãos, em forma de bilhete:
"Aprendi a sobreviver na tua ausência... A ânsia que tomava conta de mim quando desaparecias, também ela desapareceu contigo, e o medo de te perder, evaporou assim como qualquer sentimento do amor que por ti sentia... Não, já não te amo, já deixei de te amar e deixei de ver a pessoa que queria que tu fosses. Deixei de me agarrar tão fortemente à ideia que tinha de ti e que derreteu tão facilmente nos meus braços depois do que proferiste! Aprendi a sobreviver na tua ausência... Porque eram tantas as vezes em que estavas ausente, aliás, acho que nunca chegaste a estar presente, mesmo de todas as vezes que estavas perante mim eu sabia que não estavas comigo, estavas com ela, com a outra... Aprendi a sobreviver na tua ausência.... E não só sobreviver, aprendi finalmente a viver! Já não estou na tua sombra nem sou o teu reflexo, se alguma vez o fui...A verdade é que deixei de estar apaixonada por ti há muito tempo, mas só agora é que deixei de te amar, porque nunca vou amar alguém que me diga tudo o que me dizias, que me tratava da maneira que tu me tratavas. Acabou! Acabou finalmente e não quero ser tua amiga, aliás, ficaria perfeitamente e completamente satisfeita se nunca mais te visse, porque para mim tu desapareceste.Toda a pessoa que eras desapareceu e não podendo ver alguém que se pareça contigo e que não és tu, ainda sonho com o outro "tu" e ainda amo o outro "tu", e saber que ele desapareceu é o que dói mais..." Eve
Senti-me estranha quando acabei de ler e percebi que ela se tinha inspirado na minha própria história para escrever aquele pedaço de papel, que o tinha feito como se estivesse na minha pele. É uma coisa difícil de explicar esta, lermos algo que não nos pertence e sabermos de imediato que somos as personagens principais da carta que outro alguém compôs, ainda que não outro alguém qualquer. Senti uma espécie de picada no peito, dolorosa e ao mesmo tempo, de alívio, talvez - ultrapassa-me e não sou capaz de o transpor para palavras, de qualquer das formas, este sempre foi um assunto delicado e ainda hoje me custa fazê-lo.
Acima de tudo, é uma sensação incomum. Para além de ver os meus próprios sentimentos e a experiência que vivi numa outra caligrafia que não a minha, vejo agora como sou transparente - pelo menos com os meus melhores amigos. É bom, sentir o quão bem me conheces, ao ponto de transmitires o que me vai no coração tão bem. Dá até a sensação de que eu própria o poderia ter escrito há algum tempo atrás.
Tenho de repetir e acrescentar: gosto que me conheças tão bem; afinal, vocês são a minha casa, o meu espelho. Obrigada Eve, pelo texto que, by the way, está lindo.